EM LONGAS VIAGENS, MOTOCICLISTAS CELEBRAM A VIDA E A LIBERDADE

A celebração de estar naquele local e de ter a liberdade, a coragem, e o esforço de viver uma vida diferente”, relata o promotor Carlos Fiorioli

O motociclismo une um grupo de amigos da região – homogêneo na idade e no perfil das motocicletas utilizadas, e em especial no que se busca em uma viagem de longa distância e de vários dias. No café da manhã na loja da Honda Dream – Valecross, em Lajeado, realizados sempre aos sábados de manhã, eles se encontram para falar sobre a paixão que os une, organizar viagens e lembrar de outras.

Na semana passada, Cleofas Moershbacher, Reginaldo Dagani, Luis Augustin, Marcos Wiebush, Falvaro de Assis, Carlos Augusto Fiorioli, Heitor Fell e Ricardo Augustin voltaram de uma viagem pela Argentina e Chile, após percorrerem mais de seis mil quilômetros em 12 dias. A eles juntam-se mais alguns motociclistas que os acompanham inúmeras vezes, como é o caso de Luis Plein. Eles já rodaram mais de 30 mil quilômetros em grupo sempre manteve o padrão de harmonia, de amizade, como relata o promotor Fiorioli.

De acordo com o promotor, que concedeu entrevista ao Agora no Vale, essas viagens demandam muita estabilidade emocional, e não apenas na fiabilidade das motocicletas. “O mais importante é que o grupo esteja emocionalmente estabilizado, que as pessoas conheçam a todos, de modo que haja muita parceria, correspondência, e que não haja atritos normais da convivência próxima e extensa desses dez a 12 dias”, observa. “É organização e confiança”.

Entrevista

Agora no Vale – O que se busca nessas viagens?

Promotor Carlos Augusto Fiorioli – Se busca alegria, paz, liberdade, busca principalmente status de vida que não tem na vida rotineira. Muita alegria. Muita liberdade, parceria e amizade. Busca situações que tu não encontra no dia a dia. Está afastado da família durante vários dias, e muitas vezes em dificuldades. Tu sobe uma cordilheira, às vezes de cinco mil metros de atitudes e em estradas com areia, pedras, nevascas, ventos. Tem que lidar com esses fatores durante o dia, e vai notar que vai precisar da parceria física e emocional dos companheiros. Se tem uma dificuldade qualquer, vai encontrar nos amigos essa força para dar sequência ao projeto. É isso que se busca.

Agora no Vale – Vocês sentem que voltam diferente após cada viagem?

Fiorioli – Todos nós, depois de cada viagem extensa, voltamos melhor como pessoa, como motociclista, como pai, como cidadão, até pela experiência que temos em outros países, outros povos, outras comunidades, outras regras. Embora a regras de trânsito sejam iguais ou muito parecidas em todo o mundo, as regras de convivência não são. Então quando tu está em uma comunidade extremamente pequena, e vou dar o exemplo do que aconteceu comigo e com o Ricardo. Estávamos atravessando o Passo de Pino Hachado (fronteira Argentina-Chile) e queríamos que uma menina, voltando da escola, tirasse uma foto do grupo. E ela, apavorada quando viu que nós estávamos sobre a rodovia, em temperaturas negativas, saiu correndo pela neve e evitou qualquer contato conosco.

Essas situações demonstram que o comportamento que tu deve ter em cada lugar vai mudando. Isso nos faz pessoas mais sensíveis, pessoas melhores, pois aprendemos muito mais a observar, enxergar e ouvir do que impor as nossas regras e as nossas formas de conduzir.

O comportamento do argentino de Buenos Aires é diferente do comportamento do argentino do Norte ou do Sul, do chileno. Veja bem, o Chile é um país estreito, mas muito comprido. Então existem muitas características que fazem com que a gente, quando chega em determinado lugar, tenha que perceber o tipo de trato, de educação, de comportamento. Se o motociclista entra em algum lugar com o capacete, que eles chamam de casco, em regra o argentino e o chileno não gostam de que seja colocado em cima da mesa. Espera que coloque no chão ou em uma cadeira. Não é um comportamento adequado colocar sobre um local onde é feita a refeição. Essas situações o motociclista atento vai ter que perceber.

Agora no Vale – O motociclista sente mais na pele a viagem e observa melhor seu entorno?

Fiorioli – O motociclista tem que ser um grande observador, não só de trânsito e segurança, mas quando vai parar a moto. Se faz notar pela roupa, mas tem que ter um padrão de educação muito bem conduzido, para que não seja o sujeito intrometido. É um crescimento pessoal, extraordinariamente e poderoso para que possamos sempre voltar como melhores pessoas, cidadãos.

Agora no Vale – Argentina, e em especial o Chile, vivem uma crise. Vocês perceberam isso durante a viagem?

Fiorioli – As situações econômicas que envolvem o Chile e a Argentina são focadas em capitais, diferente do Brasil que tem uma estrutura geográfica bastante diferente. Então o Chile é um país que tem um governo de direita, bastante forte, e vem de um governo de esquerda. O atual corta direitos sociais, direitos trabalhistas, recua no Estado previdenciário e coloca forma que, para acessar serviços públicos, se não precisam pagar as pessoas precisam colaborar. Isso acaba dividindo o país em uma área de pessoas que têm dinheiro e outras que ficam mais excluídas. Então a grande mudança na América Latina é a exclusão das classes menos favorecidas. Isso deve ter acontecido no Chile. Não nos colocamos em área de perigo, não andamos na área de Santiago, Valparaíso, Viña del Mar, mas na área de Concepción haviam protestos.

Agora no Vale – Quais são as melhores surpresas de uma viagem de longa distância?

Fiorioli – Quando retorna da viagem e olha uma foto de todo o grupo junto. Analisa o lugar em que tu estava e vê aquele grupo que alcançou aquele desafio. Nesta viagem a surpresa maravilhosa foi quando estávamos subindo, de manhã, em direção ao vulcão de Vila Rica, e depois o Passo Pino Hachada. Passamos dentro de uma reserva florestal de araucárias e totalmente nevada. Paramos em determinado ponto, abrimos uma garrafa de vinho, e com pão e bolacha cada um de nós pode dar uma bebericada. É uma celebração à vida, à liberdade. A celebração do fato de poder estar ali naquele local e de ter a liberdade, a coragem, e o esforço de estar vivendo uma vida diferente.

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