Moto e chuva

É possível andar de moto em todas as estações do ano sem rigores extremos de calor, frio ou vento. E mesmo a chuva não costuma ser abundante a ponto de complicar (muito) a utilização da moto.

É sabido, por todos, que as chuvas, sobretudo as primeiras da temporada, causam problemas no trânsito numa escala gigantesca e que os acidentes, muitas vezes apenas pequenos toques e quedas, aumentam numa escala inacreditável.
Também facilmente se percebe, mesmo sem qualquer base científica, que o número de motociclistas decresce bastante, sobretudo aqueles que não fazem da moto o seu ganha pão, como o pessoal que faz entregas ou as forças de segurança.

A pergunta que fica no ar é: porque é que com chuva há muito menos gente andando de moto? Segurança? Comodismo? Medo da chuva? Desconforto? Um pouco de todas?

Andar de moto com chuva no asfalto: ameaças e oportunidades


Afirmar que se muito mais gente andasse de moto, se iria conseguir resolver todos os problemas da mobilidade, reduzir substancialmente a poluição e a dificuldade de estacionamento… seria exagerado, mas o fato é que os veículos de duas rodas, são excelentes para a fluidez do tráfego e diminuir os níveis de contaminação do ar. Sobretudo nos grandes centros urbanos.

Ora, se com a chuva o trânsito é mais caótico… faria ainda mais sentido usar a moto nesses dias, sobretudo se para evitar os transportes públicos, insuficientes e ineficientes, como é comum…

Porém, não é isso que sucede. Assim que caem umas gotas vemos muitos motociclistas deixarem as suas montadas na garagem e a optarem por outros meios para se deslocarem, com especial destaque para os automóveis! Será que as motos hibernam ou se constipam? Ou são apenas os/as donos/as? Claro que também há quem ande de moto nas 4 estações e até nem sequer tenha automóvel, que, apesar de felizmente serem cada vez mais, não deixam de ser (ainda) uma minoria!

É um fato que com chuva o piso fica mais escorregadio e traiçoeiro, e que muitos condutores/as conduzem exatamente da mesma forma, sem adequarem a condução ao estado da via e sem se preocuparem com o estado dos pneus… e tudo isso potencia o acidente, seja em que veículo for!

Por outro lado, andar de moto com chuva implica equipamento adicional para maior proteção e conforto face aos elementos. Andar molhado e gelado, nomeadamente nas extremidades (mãos e pés) exponencia o cansaço, o desconforto, em suma: o risco de acidente!



Quem não se prepara minimamente para andar à chuva (com calçado adequado, roupa mais quente e impermeável, tal como as luvas, e capacete preparado para o embaciamento) talvez seja mesmo melhor não andar de moto nessas circunstâncias! É melhor para eles… e para os outros!

Naturalmente que a própria moto pode fazer toda a diferença e há muitas com uma excelente proteção para as intempéries. Mas não são todas! Já a maioria das scooters estão como “peixe na água” nessas circunstâncias mas, mesmo assim, há que ter especial cuidado e atenção para minimizar o risco e promover a segurança.

Algumas dicas para andar de moto com chuva

O que a seguir apresento são apenas algumas ideias gerais que podem ajudar também nas situações em que os elementos estão contra nós, situação em que o nosso nível de atenção deve ser (ainda) maior.

Pneus: 
São o que nos agarra à estrada. É complexo (e caro) mudar de pneus como se faz, por exemplo, no Moto GP, conforme a meteorologia, mas a um nível mais simples, é crucial ver a pressão dos mesmos de forma regular e ter atenção especial ao desgaste. Nem sonhem em facilitar nesta matéria, mesmo que sejam peritos em andar à chuva. 
Já agora, os pneus off road são um desafio ainda maior na chuva! Ótimos fora da estrada, mas no asfalto…

Armadilhas na estrada: 
São tantas, mas tantas! Deixo apenas alguns dos exemplos mais conhecidos e perigosos, como as manchas coloridas de óleo e gordura, as juntas de dilatação em pontes e afins, buracos com água em que não se vê o fundo, lençóis de água, tampas de esgoto, lama, selante de asfalto, piso de calçada, gelo, geada, tenta das faixas e a lista bem que podia continuar, sendo que há estradas que mais parecem um campo minado.

Iluminação:
Quantos de nós verificam a regularidade a iluminação nos nossos veículos? Se tem iluminação adicional, de origem ou não, se está devidamente alinhada? Se os faroletes traseiros funcionam? Se a moto tem piscas (e costumam usá-los)? Recomendo ainda, e vivamente, o uso de colete refletor por cima de tudo, sobretudo em condução noturna ou em zonas de nevoeiro. Não é para ver melhor. É para sermos vistos pelos outros! Sobretudo em caso de queda.

Limpeza da moto: 
Pode parecer pouco relevante, mas não é. Quando foi a última vez que verificaram se os discos tinham gordura/óleo? Como está a transparência das faróis? Estão “queimadas” pelo uso? O assento, está limpo? Não escorrega? E os punhos que servem para agarrar e manobrar a moto? Estão OK ou escorregam e estão completamente gastos, implorando para serem mudados?

Capacete: 
É minimamente adequado para o mau tempo? É de cor clara? Tem sistema anti embaciamento, vulgo pinlock? E a viseira como está? Tem riscos, que são uma verdadeira armadilha, notadamente com os reflexos das luzes? É fácil de desmontar para ser bem limpa regularmente? Veda bem? E o interior do capacete, qual o seu estado? Será que não vale a pena investir num novo, apenas para o tempo mais frio e chuvoso? 

Luvas:
Quantos pares de luvas têm? Quais são específicas para o frio e/ou chuva? Mesmo os protetores de mãos e os punhos aquecidos não resolvem tudo! Mãos molhadas e geladas reagem mais lentamente e exercem menor domínio sobre a moto… o suficiente para não conseguir evitar uma situação inesperada!

Blusão/calças impermeáveis: 
Existem muitas soluções, para diferentes gostos e carteiras, então não há justificação para andar de moto “molhado como um pinto”. E aqui as scooters têm uma vantagem adicional com os chamados “cobre pernas” ou aventais, que são realmente imprescindíveis para combater sobretudo o frio. Podem até optar por um fato de chuva, impermeável, de duas peças ou de apenas uma, mas não facilitem! O conforto é o nosso melhor amigo!

Calçado: 
Já vi gente que usa simplesmente “botas de borracha” ou galochas! Sugiro botas de inverno mesmo impermeáveis, mas respiráveis (há imensa oferta), mas podem usar por cima umas “cobre botas”, também conhecidas por polainas que garantem que se chegue ao destino com pés enxutos e quentinhos! Simples e prático! Grande invenção que já existe há décadas e foi adaptada para as motos!

Ajudas eletrônicas à condução: 
Nestas circunstâncias as ajudas eletrônicas à condução são ainda mais úteis! Controle de tração, ABS, embreagem deslizante, modos de condução (onde costuma existir um específico para chuva – rain) acabam por ser uma ajuda tremenda em condições adversas e podem constituir um importante fator de decisão para comprar a moto x em detrimento da y! Claro que são um investimento adicional, mas se podem evitar uma queda… e ficam logo amortizadas! Sou ainda mais fã do “anjo da guarda eletrônico” nestas circunstâncias!

Saber ceder:
Por vezes, teimar em fazer não é uma virtude. Nem mesmo para quem anda de moto nas 4 estações do ano! Ainda há pouco tempo a chuva era tanta que decidi parar a moto debaixo de um viaduto e aguardar que passasse, apesar de já estar atrasado! Se cai uma chuva diluviana, se há vento intenso ou nevoeiro cerrado… talvez seja um sinal de que o melhor a fazer é mesmo parar, ou nem sequer pegar na moto! O risco pode não justificar! Não vale a pena sermos fundamentalistas, sobretudo se pudermos optar!

Praticar: 
Já experimentaram, numa estrada deserta, com piso molhado, travar fortemente, primeiro apenas com a roda de trás, ver as reações da moto, depois apenas com a roda da frente e, por fim, com ambos os freios, independentemente de terem ou não ABS?
Se não estiverem “confortáveis” com a chuva, pratiquem uma e outra vez! Poderá fazer a diferença entre parar em segurança ou em bater num qualquer obstáculo!

Antecipação: 
Deixei esta para o final, mas podia ter sido logo a primeira! É a minha regra de ouro para andar à chuva (e também fora dela)! Além de me conhecer e à moto, tento antecipar o que os outros vão fazer, para agir preventivamente e, ao mesmo tempo, adoto um ritmo mais suave de utilização do acelerador, dos freios e até dos movimentos em cima da moto, usando uma mudança acima daquela que costumo usar, escolhendo as trajetórias (mais largas e secas, se possível). E garanto que tem resultado (relativamente) bem!

Fora de estrada com chuva
Aqui o paradigma é completamente oposto! Assim que começa a chover, “brotam como cogumelos” os praticantes de off-road! Seja em duas ou mais rodas, aumenta exponencialmente o número de motos nos campos, em especial aos fins de semana! Imensas motos que só saem da garagem nesta altura do ano têm então a oportunidade de desbravar montes e vales! Terminou a letargia!

No off-road a chuva é uma bênção enorme! Também assim é na natureza, nas barragens… 

Com a chuva começa a renovar-se a vegetação para começa a florescer, o terreno começa a ficar menos seco e duro, o pó deixa de fazer parte da paisagem, os cursos de água ganham um novo alento e mesmo as lamas e as charcas de água são uma verdadeira diversão!

Por outro lado, as temperaturas começam a descer e para a prática disso é fantástico porque, ao ser uma atividade com elevado grau de exigência física, menos calor é sinônimo de menos desidratação, e consequentemente de mais divertimento e segurança. E com a chuva,a lama passar a ser uma amiga e o pó uma miragem!

Mas para quem gosta de andar fora de estrada, mesmo que seja apenas numa perspetiva completamente descontraída, a chuva é um elemento essencial e muito querido!

Porém, nem tudo são maravilhas! Quem já andou, por exemplo, fora de estrada com um capacete de de cross (mesmo com os óculos) conhece bem a sensação de as gotas de água parecerem agulhas a picar o rosto! Nem mesmo abrandar o ritmo resolve o problema! Se insistirmos, chega mesmo a ser muito doloroso! E a lama nos óculos (mesmo com sistemas de roll-off ou tear off) é muito desagradável e tentar limpá-la com a luva só piora as coisas e acaba por riscar a lente!

Em outra perspectiva, o piso muito escorregadio e enlameado é um desafio tremendo à nossa capacidade de gerar tração na moto, de manter o equilíbrio e fugir das ratoeiras do terreno ou, simplesmente, de evitar cair numa passagem maior que o esperado! Parece que as rodas da nossa moto ganham vida própria e a lama acumula-se em todo o lado, roupa incluída! Uma delícia para alguns… para outros um suplício! Faço parte dos primeiros!

Já andar em areia pode ser fantástico! Com piso seco a areia pode parecer algo traiçoeira, sobretudo para quem não tem prática. Molhada a areia fica mais compacta e o prazer é tremendo!

Em suma, para andar fora do asfalto, a chuva consegue trazer um encanto muito especial e momentos de magia que seriam completamente impossíveis com o piso mais seco e duro! Por isso a minha sugestão é esta: aproveitar ao máximo, mas sem loucuras e nunca abdique do equipamento de segurança!
Finalizando, a chuva, o tempo mais úmido e frio, a menor visibilidade, o piso mais escorregadio, os dias mais pequenos… representam novos riscos e ameaças, mas podem ser também novas oportunidades, desafios para testarmos a capacidade, de nos superarmos!

Da minha parte, a sugestão é clara: aproveitem esta mudança de cenário, mas tendo presentes os riscos, aproveitando as maravilhas da tecnologia e o uso do equipamento adequado! Se puderem, não deixem de andar de moto por causa da chuva!

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