Aprilia e Vespa: as duas gigantes que faltam no Brasil

por Roberto Agresti

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Entre 1998 e 2001, a italianíssima Aprilia foi comercializada no Brasil. Modelos como a bigtrail Pegaso 650, a superesportiva RS 250 ou o scooter Scarabeo, importados da Itália, logo ganharam status de objetos do desejo, produtos destinados a clientes que valorizavam modelos com o design italiano aliado a alta tecnologia, qualidade e excelente acabamento.

O sucesso da marca foi tanto que, em meados de 1999, foram anunciados investimentos na ordem de US$ 15 milhões (R$ 46,7 milhões, na cotação do dia) para implantação de uma linha de montagem em Manaus. O intuito era beneficiar-se da redução de impostos decorrente de produção nacional e oferecer os modelos a preços mais competitivos, aumentando a participação em nosso mercado.

Desta feliz notícia ao cessamento total das atividades da Aprilia no Brasil passaram-se apenas dois anos. O problema, ao que consta, não foi o desinteresse dos clientes pelas motos e scooters da marca, mas sim conflitos entre o importador, o Grupo Izzo, detentor de 49% do negócio, e os então donos da Aprilia, a família Beggio.

Este triste desfecho é um episódio recorrente na história do finado Grupo Izzo, que também foi importador/parceiro comercial de marcas como Harley-Davidson,Triumph, Husqvarna, Ducati e KTM entre outras. A briga entre a Aprilia e o Grupo Izzo foi parar nos tribunais mas, diferentemente das outras marcas citadas, não houve acordo. Assim, a italiana Aprilia foi a única das marcas ex-Izzo a não voltar ao Brasil de forma oficial.

Pouco mais de uma década antes do fim da Aprilia no Brasil, outra marca importante de origem italiana deixava consumidores brasileiros na mão: a Vespa. Em meados dos anos 1980, esta que é considerada a mãe de todos os scooters, foi fabricada em Manaus através de uma parceria entre três empresas as brasileiras: a Caloi, notória fabricante de bicicletas, a B. Forte e o Grupo Piaggio. O modelo escolhido foi a PX 200E, que logo caiu nas graças dos brasileiros. Apesar do grande sucesso de vendas, a sociedade naufragou após míseros três anos de atividade, ao que consta, vitimada por brigas entre os sócios brasileiros e os italianos.

Em 2004, um fato uniu estas duas histórias de fracasso de nosso mercado de motocicletas: a Aprilia foi vendida para o Grupo Piaggio, que além de donos da Vespa, também incorporaram marcas importantes como a Gilera, Moto Guzzi e a espanhola Derbi.

Deste modo, a Piaggio tornou-se o maior produtor europeu de veículos motorizados de duas rodas, tendo outra lucrativa atividade no âmbito dos veículos comerciais leves de três ou quatro rodas.

Esta grande diversidade produtiva fez o Grupo Piaggio fechar o ano de 2014 vendendo mais de meio milhão de veículos em todo o planeta. O resultado significativo também foi obtido graças a uma verdadeira reengenharia industrial ocorrida na última década, que além de marcas, acrescentou às fábricas na Itália unidades produtivas na Índia, China e Vietnã. Enfim, o Grupo Piaggio parece ter conseguido driblar as dificuldades do mercado de duas rodas pós-crise de 2008 no chamado 1º mundo com suas operações em países emergentes.

Toda a política expansionista dos italianos não teve ramificações no Brasil. Aqui, os que desejam ter uma Aprilia, Vespa ou qualquer outra moto do grupo, devem recorrer a importadores independentes. Deste modo a Piaggio é a única grande empresa realmente relevante no cenário da motocicleta mundial ausente de nosso mercado e, como exposto acima, motivos não lhe faltam.

Questionados anualmente na principal mostra do setor de duas rodas mundial, o EICMA – mais conhecido por Salão de Milão – quando este distanciamento do Brasil terá fim, ouvimos dos altos executivos da Piaggo sempre a mesma lacônica justificativa: “Nossa prioridade são investimentos na Índia e Sudeste Asiático”.

Todavia, uma luz no fim do túnel surgiu em novembro passado, quando Leo Francesco Mercanti, diretor de marketing, nos deu a entender que o Brasil poderia voltar a comparecer no radar da empresa. Infelizmente, o que se viu desde então foi um forte retrocesso nas vendas de motociclos em nosso país, oposto ao cenário observado na Europa e em países emergentes como a Índia, o que certamente não incentiva investimentos por aqui, sejam eles o de simples atividade de importação ou o mais adequado processo de montagem em Manaus.

A esperança de ter as premiadas Aprilia em nossas ruas, marca detentora de nada menos do que 54 títulos mundiais (39 deles na velocidade mundial), as charmosas Vespa ou o inovador triciclo Piaggio MP3 estão reduzidas ao fato que, apesar da queda geral no número de motos vendidas no Brasil, o segmento de scooters e de motos grandes, acima de 500cc, ainda não foi tão afetado pela freada em nossa economia, o que na verdade não parece ser o suficiente para que vejamos estas marcas em nossas ruas.

Tais modelos parecem fadados a continuar longe da realidade da maioria de nossos consumidores e presentes apenas nas garagens de gente que se dispõe a pagar muito caro por produtos reconhecidamente requintados, mas que não dispõe do respaldo oficial de uma marca o que significa serviços, peças e garantia. Uma pena.

Fonte: http://g1.globo.com/motos

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