BMW na contramão

O mercado brasileiro de duas rodas vem se mostrando um terreno acidentado para parte dos fabricantes. Mas a despeito da queda contínua do setor, nos últimos anos, uma vertente se consolidou como um ponto fora da curva: as motos premium, com mais de 450 cilindradas. Menos expostas aos impactos da desaceleração econômica, as vendas da categoria no Brasil saltaram de 34 mil unidades, em 2009, para 53,4 mil unidades, em 2015, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo). Nesse intervalo, grandes marcas reforçaram seus investimentos locais no segmento.

Conhecida por concentrar sua atuação nesse espaço, a alemã BMW Motorrad foi uma das empresas que lideraram esse movimento. Agora, no entanto, a divisão de motocicletas da BMW está seguindo na contramão dessa tendência, ao incorporar uma nova trilha em sua estratégia de crescimento no País. A guinada passa pela estreia no mercado de média cilindrada, atualmente dominado pela japonesa Honda – que responde por mais de 70% das vendas. O ponto de partida é o modelo G 310 R, com previsão de lançamento no Brasil no primeiro trimestre de 2017.

“Queremos trazer novos consumidores para a nossa marca”, diz Stephan Schaller, presidente mundial da BMW Motorrad. “E o Brasil é um dos maiores mercados globais, especialmente no segmento de 300 a 400 cilindradas.” O executivo alemão observa que o preço do modelo ainda não está definido, mas estima que o valor irá girar em torno de R$ 20 mil. Hoje, a moto de entrada da fabricante no País é a F 700 GS, que chegará às concessionárias em novembro, por R$ 39.950. O escopo mais amplo é parte de uma estratégia global. Em 2015, a BMW estabeleceu a meta de vender 200 mil motocicletas por ano em 2020.

No ano passado, a empresa alcançou o volume de 136,9 mil unidades e uma receita de € 1,99 bilhão, alta de 18,5% sobre 2014. Com 7.745 unidades, o Brasil representou 5,6% das vendas. Atualmente, o País é a sétima maior operação da marca no mundo. Peça essencial na meta para 2020, a investida na categoria abaixo de 500 cilindradas não significa, no entanto, que a BMW deixará de priorizar o mercado premium. Schaller não revela a projeção de participação no novo segmento. Mas ressalta que o plano, a princípio, não envolve grandes volumes para a nova linha.

A ideia é usar a G 310 R como porta de entrada para que os consumidores, pouco a pouco, migrem para os modelos mais robustos da marca. Diretor da consultoria ADK, Paulo Garbossa entende que a abordagem é acertada e enxerga outros benefícios. “Quando a empresa abre o leque, passa a ter mais opções para driblar eventuais crises em um determinado segmento”, diz. No Brasil, essa estratégia ganhou um reforço importante na quinta-feira, 20, com a inauguração da fábrica própria da companhia, a primeira do grupo 100% dedicada a motos fora da Alemanha.

Desde 2009, a BMW possuía uma operação fabril em parceria com a Dafra, em Manaus, onde também está instalada a nova unidade, em uma área de 10 mil metros quadrados. “Agora temos flexibilidade e capacidade de produzir qualquer um dos 30 modelos da marca.” Com um aporte de € 10,5 milhões (R$ 36 milhões) e a geração de 175 empregos diretos, a unidade responderá, inicialmente, pela montagem dos oito modelos produzidos anteriormente com a Dafra, além dos lançamentos F 700 GS e G 310 R. Como boa parte do portfólio já era fabricado localmente, não há previsão de redução de preços. A fábrica começa a operação com um turno e uma capacidade instalada de 10 mil unidades por ano.

Em 2015, a marca produziu 8.528 unidades no País. A BMW não descarta destinar parte das motos para exportação, mas, a princípio, essa estratégia não integra os planos da companhia. “O investimento mostra o potencial do mercado nacional”, diz José Eduardo Gonçalves, diretor da Abraciclo. Ele enxerga ainda muito espaço para a expansão do setor, apesar das projeções pouco otimistas em curto prazo. A associação prevê uma queda de 16,7% nas vendas em 2016. Os números também não assustam a BMW. “O Brasil vive um ciclo de baixa, mas esse é o momento de investir”, afirma Schaller. “Ao lado da América do Norte e da China, o País será um dos motores para atingirmos nossos objetivos até 2020.”

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