Miguel Oliveira, o campeão das motos que não tem CNH de moto

O português chegou este ano ao campeonato de MotoGP, a fórmula 1 do motociclismo, ainda a tempo de competir com o seu ídolo de miúdo, Valentino Rossi. Não tem carta de moto, encontrou o amor da sua vida na filha da madrasta, insiste no mestrado de Medicina Dentária – e quer ser campeão do mundo

iguel Oliveira quase veio ao mundo, há 24 anos, em cima de uma moto. No fim da gravidez, a mãe, Cristina, e o pai, Paulo, residentes em Almada, decidiram um dia ir dar um passeio de moto até à lagoa de Albufeira, em Sesimbra. Às tantas, entraram à aventura numa estrada de areia, cheia de lombas. Horas depois, na madrugada de 4 de janeiro de 1995, Miguel nasceu.

Com 2 anos, o miúdo arruinou em meses um triciclo elétrico. O pai teve então de pensar num veículo mais robusto para a paixão acelerada do filho. Escolheu uma moto-quatro Suzuki, de 50 centímetros cúbicos (cc). Um animal que Miguel, com 3 anos, domou facilmente. Punha prego a fundo “no quintal, na rua, num areal que há ao pé da Charneca de Caparica, onde o meu pai me levava – muito na desportiva”, recorda à VISÃO o primeiro piloto português a chegar ao MotoGP (“Grand Prix”), a fórmula 1 do motociclismo de velocidade. Ao serviço da equipa francesa Red Bull KTM Tech 3, Miguel Oliveira, com o número 88 na moto, inicia o seu grande sonho no domingo, 10, no Grande Prémio do Qatar, uma corrida noturna. Milhares de fãs esperam ficar agarrados à televisão para o ver competir nas 19 provas do campeonato, que termina a 17 de novembro. Ao fim de cada uma, Miguel irá perder, em média, dois quilos de água, estima a sua equipa médica.

Ainda cabe aqui contar que à moto-quatro da primeira infância seguiu-se outra, mais potente, de 80 cc. Essa evolução pareceu natural ao pai motard. Aos 4 anos subiu, pois, de cilindrada. Mas chegaram os primeiros receios à família. “Houve um dia em que caí dentro de uma vala de água da chuva”, lembra Miguel, divertido. Para o pai, porém, foi um susto que o fez vender a moto e pensar em alternativas para o filho. Em vão.

KART E KARATÉ FALHADOS

Miguel Oliveira demorou apenas 15 anos a alcançar o grande palco. Já tem vida para uma primeira biografia, que o piloto de Almada escreveu a quatro mãos com a jornalista Edite Dias, intitulada Next Level – 44 curvas até ao MotoGP (Casa das Letras, 212 págs., €15,90), e que chegou esta semana às livrarias. Nos 44 capítulos do livro (também o número que Miguel usou nas categorias intermédias, Moto3 e Moto2), relatam-se avanços e recuos na carreira do piloto, construída com muito menos glamour e muito mais sofrimento do que se imagina.

Carreira que, aliás, nem era suposto ter existido, depois de o miúdo traquina pregar ao pai o susto de cair na vala de água. Paulo Oliveira tentou, então, que o filho enveredasse pelos karts. Não correu bem. A maior parte dos outros pequenos competidores era de famílias ricas. “E, de alguma forma, um pouco arrogantes”, conta Miguel Oliveira. “Na altura com 8 anos, eu era um miúdo numa fase ainda muito rebelde e não gostava daquilo”, acrescenta. “O kart não me fascinava, os resultados eram assim-assim, nunca ganhei uma prova, mas também não ficava em último.” Paulo Oliveira e o filho concluíram que aquela não era uma alternativa ao motociclismo.

Seguiram-se as artes marciais, que até podiam servir para acalmar o rapaz – o pai achava-o algo hiperativo. Outro logro. Ainda chegou a cinturão amarelo com duas listas verdes, na modalidade shotokan. Tudo acabou, porém, no dia do torneio para avaliação, em que Miguel teve de lutar com um rapaz um pouco mais velho e de cinturão mais elevado. “Ele sentiu que ganhara o combate, mas a vitória foi dada ao adversário”, relata o pai na biografia do filho. “Nesse dia havia mais combates durante a tarde, nos quais ele ia participar para ser avaliado, mas pediu-me para ir almoçar a casa, e nunca mais quis voltar. Sentia-se injustiçado.”

Paulo Oliveira perseguia o seu próprio sonho, competindo no Campeonato Nacional de Resistência de Motos, que conquistou. Levava Miguel pela mão, de oficina em oficina, o qual se fascinava com a mecânica, as mãos sujas de óleo e o cheiro a gasolina queimada. Sem saber, o pai estava a construir o sonho do filho. Até que, no Natal de 2003, ofereceu a Miguel a sua primeira moto de competição, uma Metrakit amarela. Registou o momento em vídeo, em que se vê o miúdo de 8 anos a atirar-se para o chão, radiante. Antes já tinha dado ao filho um capacete com o super-herói preferido do rapaz, o Homem-Aranha, com viseira e tudo. Perfeito. Ou nem tanto, mas só ao princípio. Até dominar a moto, Miguel caía e voltava a cair. Contudo, já com a concentração extrema que hoje o caracteriza, a Metrakit deixou de ter segredos para ele. Como a família vivia ao pé de uma praça, que tinha uma espécie de rotunda, o miúdo nem pensou duas vezes: acelerava ali a Metrakit, a tentar tocar com o joelho no chão, nas curvas, imagem de marca da velocidade no motociclismo. E tocava mesmo – aparecia todo “raspado” em casa.

RAÇA DE CAMPEÃO

Miguel Oliveira não demorou muito a saltar para as pistas de competição. Logo em 2004, mostrou todas as suas potencialidades: foi a Almería, em Espanha, participar no World Festival Metrakit, e acabou em 14º lugar entre os mais de 80 aspirantes a pilotos em prova.

Mas a primeira competição portuguesa em que entrou, aos 9 anos, o Troféu Nacional MiniGP/Vodafone, podia ter feito ruir o sonho à nascença. “Ficava sempre em último”, diz Miguel. “Os outros miúdos tinham 12 e 13 anos, já tinham experiência do motocrosse.” Foi aí que começou a conhecer-se a sua determinação. Jorge Viegas, na altura presidente da Federação Nacional de Motociclismo, recorda na biografia uma das primeiras corridas de Miguel a que assistiu. “Lembro-me de ele cair no arranque, se levantar e correr para a moto. Quando muitas pessoas pensavam que qualquer criança naquela situação começasse a chorar e desistisse, ele mostrou uma raça incrível.”

É essa “raça” que, ainda em 2004, faz Paulo Oliveira tomar a decisão de levar o filho para Espanha, onde a tradição do motociclismo está há muito enraizada, para que Miguel aprendesse o máximo possível. Participou no Campeonato Race, quatro provas realizadas no circuito de Jarama, em Madrid. Mas era preciso mais, havia muito para evoluir, e pai e filho apostam em 2005 como o ano de tudo ou nada. Miguel mostrava cada vez mais talento e gozo no domínio da moto. Nas idas e voltas entre Portugal e Espanha, pai e filho calcorrearam milhares de quilómetros em carrinhas, umas novas, outras velhas, muitas emprestadas. Incansavelmente.

Veja-se este exemplo: no mesmo fim de semana, Miguel tinha uma prova na Andaluzia e uma corrida decisiva em Braga, em que podia sagrar-se campeão nacional. Paulo e o filho fizeram umas contas loucas para conseguirem estar nos dois sítios. Como em Braga havia duas mangas, uma no sábado e outra no domingo, Miguel podia faltar à primeira, desde que estivesse presente na segunda. O pai organizou tudo. Convenceu o seu tio Lafayette a embarcar na aventura de fazer 2 100 quilómetros em 48 horas com duas corridas pelo meio. Carlos, um amigo de Paulo, garantia, por seu lado, que outra moto de Miguel estaria no circuito de Braga, no domingo, verificada e pronta para a corrida. Ao fim da tarde de sexta-feira, Paulo e o tio foram buscar Miguel à escola e arrancaram os três em direção a Almería. Chegaram ao circuito andaluz pelas seis da manhã. Horas depois, o pequeno piloto correu e venceu, mais uma vez, em Espanha. Mal a cerimónia do pódio terminou, viajaram para Braga, onde chegaram cerca da uma da manhã, ganhando a hora de diferença do fuso horário. E Miguel, com apenas 10 anos, voltou a vencer e sagrou-se campeão nacional, averbando triunfos em todas as provas em que participou.

“BULLYING” E AMOR SOFRIDO

Quando, no Natal de 2003, Miguel recebeu a Metrakit de competição, o pai obrigou-o a assumir um pacto: proporcionava-lhe poder andar de moto em troca de ele ser bem-comportado e ter sucesso na escola. O pequeno piloto tornou-se então especialista em estudar nas traseiras de carrinhas, durante os muitos milhares de quilómetros palmilhados, quase todos os fins de semana, em direção aos circuitos das corridas. E o pacto mantém-se inquebrável: Miguel garante à VISÃO que há de acabar o mestrado em Medicina Dentária, “dure o tempo que durar”.

Há quatro momentos decisivos que conduziram o piloto de Almada ao MotoGP. Com 13 anos e um wild card, participou na Red Bull Rookies Cup, que reunia um lote de jovens eleitos para corridas com motos KTM, de 125 cc. Na primeira, no Autódromo do Estoril, Miguel realizou uma recuperação brilhante, que o levou a cortar a meta na 8ª posição, depois de problemas na partida que o deixaram em último lugar logo na primeira curva. Dois meses volvidos, chegou a Donington Park, em Inglaterra, circuito que nunca tinha visto, garantiu um lugar na primeira linha de partida e, com a pista húmida e escorregadia devido à chuva, venceu a prova. De seguida, na pista holandesa de Assen, o piloto de Almada, um dos mais novos na competição, largou da 7ª posição e conseguiu chegar à liderança a três voltas do termo das 16 que compunham a corrida. Voltou a surpreender e, desta vez, com a pista seca. Acabavam-se as dúvidas quanto ao seu talento. E abriram-se-lhe as portas do Campeonato Europeu de Velocidade, antecâmara do Mundial, em que alcançou o 3º lugar na geral, logo no ano de estreia. Mas havia um outro lado da moeda, difícil para Miguel. Na escola, a crescente fama tornou-o alvo de bullying. O piloto relata que a zona, a Sobreda, era na altura problemática, e, diz, “toda a gente armava confusão comigo”. Era sempre “o alvo para ser roubado”. Equipas de TV iam à escola entrevistá-lo, e Miguel passava a ser desprezado como “o famoso”. Andou muitas vezes à pancada. “Nunca me inferiorizei”, diz à VISÃO.

Em 2003, os pais separaram-se. Miguel ficou à guarda de Paulo – que, cinco anos depois, voltou a casar-se. Com a nova (e atual) mulher, também chamada Cristina, vieram do casamento anterior os filhos, Andreia, poucos meses mais nova do que Miguel, e Luís, três anos mais velho do que o piloto.
Miguel, na altura com 13 anos, e Andreia (hoje médica dentista) apaixonaram-se quase de imediato. “Caímos naquela inocência de que, se os nossos pais estão juntos, temos obrigatoriamente de ser irmãos”, relata Miguel. “Mas nunca nos observámos com essa imagem.” Dissimularam como puderam o amor que os unia, até que, há cerca de três anos, o assumiram. “Tudo foi muito bem aceite por toda a família”, descreve o piloto. “Até nos perguntaram porque é que já não tínhamos dito há mais tempo. Andávamos ali a esconder, quando era um sofrimento apenas nosso.” Já pensam em casamento.

SEMPRE FORRETA. MENOS NA PISTA

Miguel não tem carta de moto (nas pistas, recintos privados, só é necessária a licença desportiva). Está agora a tirá-la no ACP e sabe-se lá quando a terá. “Não tenho curiosidade em andar de moto na estrada”, garante. Chega-lhe ter um bom carro (um BMW topo de gama). Em Moto2, os pilotos podem auferir entre 100 mil e 150 mil euros de salários anuais. No MotoGP, os valores são muito diferentes. Para mais, claro. Segundo a imprensa internacional, os campeões Valentino Rossi, italiano, e Marc Márquez, espanhol, lideram a lista dos mais bem pagos, ultrapassando os oito milhões de euros anuais. Rossi foi o ídolo de miúdo de Miguel, que diz ser “um privilégio ainda ter chegado a tempo de competir com o Valentino”, agora com 40 anos.

Não se sabe quanto o piloto de Almada vai ganhar no grande palco, mas uma coisa é certa – continuará o mesmo forreta de sempre. Ele próprio o reconheceu à VISÃO, na pequena loja-escritório que tem ao lado da clínica médica e dentária de que o pai (seu manager) é dono, na Amora, Seixal. “Sou mais de poupar dinheiro. É raro ir a um restaurante e ser eu a sacar do cartão para pagar a conta. Espero sempre por um convite…”

Fora isso, porém, patrocina o Oliveira Cup, um Troféu Escola de Motociclismo dirigido a jovens dos 6 aos 14 anos de idade, e dá tudo o que tem na sua profissão. Muitas horas de ginásio – e agora ainda mais, que a nova moto pesa cerca de 160 quilos e a velocidade atinge os 350 km/h. Em fins de semana de corrida, Miguel é o primeiro a chegar à box de manhã e faz de mecânicos e técnicos uma equipa coesa. Cozinha ele mesmo a sua dieta e, na noite anterior, antes de se deitar, o mais tardar às dez, ainda faz um alongamento ou vê no telemóvel vídeos do que se passou naquele dia na pista.
Nesta época, Miguel irá lutar para ser o “rookie” (estreante) do ano, prevendo-se batalhas acesas com o italiano Francesco Bagnaia (Ducati) e com o espanhol Joan Mir (Suzuki). Depois, quer ser campeão mundial “o antes possível”. O que não há de mudar são os seus rituais antes de se lançar à pista: em vez de música, ouve os sons das motos, nas boxes, em treinos ou em corridas anteriores, faz um aquecimento físico muito próprio, veste o fato de competição sempre da mesma forma, e benze-se.

33
Número de vezes que Miguel Oliveira subiu ao pódio, nas categorias intermédias de Moto3 e Moto2, 12 das quais ao lugar mais alto, o de vencedor


11 778
Quilómetros percorridos em corrida pelo piloto de Almada, na carreira

Marcos Borga
Marcos Borga (MB)

O que é o MotoGP?
O MotoGP (ou Grand Prix) é o mais antigo campeonato mundial de desportos motorizados – tem ininterruptamente lugar desde 1949. Esta época, a de 2019, com 19 provas, arranca com 22 pilotos de nove nacionalidades, e seis marcas: Aprilia e Ducati (italianas), Honda, Suzuki e Yamaha (japonesas), e KTM (austríaca). Por corrida, os pilotos são pontuados até ao 15º lugar. A primeira posição vale 25 pontos e a 15ª um. No domingo, 10, começa a 71ª edição do campeonato promovido pela Federação Internacional de Motociclismo.

Fonte: Visão

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