Teste: H-D Night Rod Special

Se a família VRSC provocou uma revolução na cultura da marca, a versão Night Rod é o expoente máximo de estilo e atitude dentro dessa linhagem

A primeira VRSC (V-Twin Racing Street Custom), ou V-Rod, apareceu em 2001 e causou alvoroço no mundo do motociclismo por fugir completamente, e em todos os aspectos, do “padrão” Harley-Davidson: estilo, proposta, motorização… Era uma verdadeira revolução. Foi considerada uma heresia para os admiradores mais puristas da marca (e até hoje essa linha não é bem-aceita por alguns), mas o fato é que a V-Rod abriu as portas da marca para um novo perfil de consumidor. A jogada arriscada deu certo, especialmente no Brasil, onde, pelo segundo ano consecutivo, as atuais representantes da família (os modelos Night Rod Special e Muscle) são as custom mais vendidas do país.

Harley-Davidson V-Rod Night Rod Special

Custom, sim, mas ninguém compra um canhão destes para lotá-la de alforges e rumar para Ushuaia. Estamos falando de uma moto que é viciada na fumaça de um burn out e é alérgica a franjinhas de couro e cromados. Ela está muito mais para Ducati Diavel do que para Fat Boy. Lembro-me bem de quando andei pela primeira vez em uma Night Rod, em setembro de 2008. Na ocasião, estilo e desempenho já eram impressionantes, mas com suspensões extremamente duras e uma posição de pilotagem muito forçada à frente, o prazer de pilotá-la acabava um pouco sacrificado. Contudo, os anos fizeram muito bem à Night, e hoje nos deparamos com uma motocicleta muito evoluída e que soube ressaltar ainda mais os seus pontos fortes e corrigir os pontos fracos de alguns anos atrás.

O assento para o passageiro é minimalista. Na Night Rod é uma moto para ser curtida sozinho

As suspensões, especialmente a traseira, melhoraram substancialmente com uma calibragem aprimorada, entretanto, dizer que são confortáveis seria uma mentira. Não há milagre, especialmente se levarmos em conta que a dupla de amortecedores traseiros (que não tem nada de excepcional) e o garfo dianteiro devem entregar estabilidade condizente para uma moto que passa com facilidade dos 200 km/h, que pesa mais de 300 kg e que ainda conta com curso bem reduzido. O resultado prático é um modelo seguro e equilibrado em alta velocidade e em asfalto bom, mas que não nos deixa esquecer que a qualidade do asfalto não é uma prioridade de nossos políticos.

Dado o caráter mais esportivo da Night Rod, o velocímetro e o conta-giros podiam trocar de lugar

Com um guidão mais próximo ao piloto, a posição de pilotagem também está muito melhor do que nas primeiras Night Rod, mas ainda assim é uma motocicleta na qual o estilo, que não deixa de ser importante nesse tipo de moto, impõe um posicionamento não tão favorável para o conforto de quem pilota. Uma coisa podemos garantir, depois que você acelerá-la, tudo o que falamos até aqui passa a ser um mero efeito colateral de algo espetacularmente bom: a sua performance.

O que parece o tanque é, na verdade, a caixa do filtro de ar

Se o visual da moto é a razão que faz muitos “candidatos a proprietário” serem atraídos para uma concessionária da marca, é sem dúvida o motor que garante a assinatura dos cheques. Derivado do que foi utilizado na Superbike VR 1000, o bicilíndrico em V a 60° com arrefecimento líquido recebeu o “ajuste fino” no centro de desenvolvimento da Porsche, em Weissach, na Alemanha. Coincidência ou não, quando aceleramos a Night Rod como ela pede (e gosta!), o som que sai da dupla de escapes lembra muito a melodia dos tradicionais motores boxer usados pelos superesportivos da marca alemã.

Se discrição é o seu negócio, esqueça esta moto. Ninguém resiste ao seu design e imponência

Com um pneu de 240 mm, entre-eixos longo e praticamente imune a empinadas, nas acelerações a Night Rod é uma catapulta, levando a moto a 100 km/h em pouco mais de 4 s. Se não aliviarmos o acelerador e continuarmos jogando marcha — só a primeira já passa de 100 km/h no velocímetro — esta Harley passa de 230 km/h no painel (216 km/h reais). É desnecessário reduzir marchas para uma retomada, mas se mantivermos o giro acima de 5 000 rpm, fica tudo muito mais divertido…E rápido. A facilidade que encontramos para ganhar velocidade é enorme, mas logo lembramos que o guidão é largo, o nosso peito fica totalmente exposto, e os pés, estão apoiados em finas pedaleiras láááá na frente. Ou seja, até 130 km/h – 140 km/h o vento não incomoda tanto, mas acima disso começamos a brigar para continuarmos grudados à moto.

O acesso para o tanque de combustível fica sob o assento

A embreagem antibloqueio impede o travamento da roda traseira em uma redução de marcha mais brusca, mas (felizmente), não impede que o pneu destracione durante uma aceleração mais radical. Tudo o que anda muito também precisa parar, e, para azar do sistema de freios, esta Harley, além do desempenho de esportiva, tem mais dois agravantes: o peso de mais de 300 kg e a distribuição de peso, que segue o melhor estilo custom. Em outras palavras, o peso está lá atrás e isso significa que não dá para abusar da dianteira. O ABS neste caso é fundamental, diria que muito mais do que em qualquer outra moto com esse potencial de performance. No fim das contas, com componentes Brembo e três grandes discos, a moto para com segurança e bom tato.

São três discos de 300 mm. Todos mordidos por pinças Brembo de 4 pistões

Considerando sua proposta, ela vai até bem nas curvas. A ciclística não reclama, e o limite de inclinação (32° para ambos os lados) é dado pelas pedaleiras. Na cidade, a Night enfrenta as limitações de uma típica custom longa, pesada e com motor de grande capacidade, e isso significa pouca agilidade para manobrar entre outros veículos ou nos corredores e um excesso de calor na perna direita, que fica a centímetros dos tubos de escapes. O assento a apenas 65 cm do chão ajuda nas manobras de estacionamento.

A Night Rod Special será a moto sorteada na promoção Motociclismo "Um mito em sua garagem"

Quer saber, no fim das contas, todos esses contras são anulados pelos muitos prós desta Harley-Davidson!

Em quatro palavras

CIDADE

Ela pode ser usada eventualmente, mas deixa claro que está fora de seu ambiente. O entre-eixos longo e o peso acabam sacrificando a agilidade que necessitamos para encarar engarrafamentos. As suspensões sofrem nas irregularidades, e o motor esquenta bastante.

ESTRADA

Sua ciclística foi pensada para a estrada, melhor ainda se tiver poucas curvas. Ela é estável, o motor não vibra, e o desempenho é impressionante. A falta de proteção aerodinâmica e a posição de pilotagem não colaboram em altas velocidades.

GARUPA

A Night Rod é uma moto para ser curtida sozinho. Garupa só por curtos trajetos e rodando devagar. Além do assento pequeno, as pernas ficam muito dobradas e não há onde se segurar. Não abuse do torque do motor se não quiser perder o garupa pelo caminho.

EMOÇÃO

Esta é uma daquelas motos que exigem um breve período para conhecê-la, mas depois que isso acontece, não queremos mais largá-la. O estilo é arrasador, a marca no tanque traz todo um charme, mas o protagonista da história é o estupendo motor Revolution.

A dupla saída de escape emite um urro empolgante quando as rotações do motor sobem

Conclusão

O “Special” no nome é mais do que justo. Goste você do estilo ou não, e independentemente da marca que ela leva no tanque (que, convenhamos, traz um apelo a mais), é inegável que esta moto é uma daquelas fora de série. Não me refiro à excelência técnica, até porque ela, na essência, é uma moto até simples. Digo fora de série no sentido de que é um dos modelos do mercado que mais oferecem prazer ao pilotar. É uma moto para entusiastas do estilo custom, mas que preferem a adrenalina de uma aceleração que cola o estômago nas costas do que a endorfina de um calmo passeio com a paisagem refletindo no farol cromado.

Ficha técnica

Motor bicilíndrico em V a 60° (Revolution)
arrefecido a líquido  I  DOHC, 8 válvulas
injeção eletrônica sequencial

Cilindrada • 1 247 cm³
Diâmetro x curso • 105 mm x 72 mm
Taxa de compressão • 11,5:1
Potência máxima declarada• 125 cv
Torque • 11,4 kgf.m a 7 250 rpm

Transmissão
Embreagem • Multidisco em óleo
Câmbio • 5 velocidades
Secundária • Por correia

Chassi 
Tipo • Perimetral de aço
Balança • Duplo braço de alumínio
Cáster / trail • 34º / 142 mm

Suspensão
Dianteira • Telescópica invertida
Barras • 43 mm
Curso • 102 mm
Regulagens • Não possui
Traseira • Duplo amortecedor
Curso • 74 mm
Regulagens • Pré-carga da mola

Freios
Freio dianteiro • 2 discos de 300 mm
Pinça • 2 pistões paralelos (ABS)
Freio traseiro • 1 disco de 300 mm
Pinça • 4 pistões paralelos (ABS)

Rodas e pneus
Dianteira • 120/70 – 19″. 3″
Traseira • 240/40 – 18″.  8″
Modelo de pneu • Michelin Scorcher

Medidas

Comprimento • 2 440 mm    Largura • 890 mm
Entre-eixos • 1 702 mm    Altura do assento • 650 mm
Capacidade do tanque • 18,9 litros
Peso cheio • 302 kg
Capacidade máxima de carga • 186 kg
Distância mínima do solo • 115 mm

No dinamômetro

Os números desse motor não fariam feio em uma boa esportiva. Com torque abundante, é possível usar marchas bem longas

Potência máxima na roda • 105,5 cv a 7 300 rpm
Torque máximo na roda • 11,1 kgf.m a 6 400 rpm

Potência específica • 84,2 cv/l
Relação peso-potência • 2,87 kg/cv
Consumo (cidade/estrada) • 17,3 km/l
Óleo do motor • 4,7 litros (após drenagem)

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