Casal brasiliense viaja por 123 países gastando pouco…. como é possivel?

Por Isabela de Oliveira – Daniela Turati e Thiago Alexandre partiram de Brasília em agosto do ano passado com um objetivo: cruzar cinco continentes, 121 países e 320 mil quilômetros em cima de uma moto. O custo: US$ 30 (R$94,90 na cotação de hoje) por dia. Além de um sonho, a viagem dos biólogos faz parte do projeto Tacitus Discooperio — conhecimento tácito em latim — que, nos próximos três anos e meio, buscará soluções para conflitos com o meio ambiente.

Salinas de Uyuni, na Bolívia

O casal se conheceu na Espanha, quando Daniela, 26, concluía o mestrado sobre o interesse biotecnológico de um fungo. O encontro dos dois virou casamento pouco tempo depois. “Mantivemos o contato e, depois que concluiu tudo, Dani foi para Brasília. Moramos juntos durante um ano e nos casamos um mês antes da viagem”, conta Thiago, de 34. Antes da aventura internacional, os dois não eram tão diferentes dos típicos casais de Águas Claras, onde viviam antes da expedição: jovens, bem instruídos e com uma carreira promissora à frente. Diferiam da maioria nisso: em vez de estabilidade das carreiras públicas, sonhavam com aventura.

Curitibano, Thiago  vive em Brasília desde 1994. Convivência e tempo criaram nele costumes muito brasilienses, como passear na livraria Cultura do Casa Park para folhear algumas obras enquanto toma café. Numa dessas visitas, o livro Projeto 5 Continentes — Uma Viagem de Descobertas Pelos Confins da Terra, no qual Raphael Karan detalha sua viagem de moto pelo mundo, chamou especial atenção.

“Li as duas primeiras páginas e pensei: é isso, vou viajar de moto”, conta o biólogo, que já era motociclista então. “Disse à Dani que a gente pararia um ano de nossas vidas para planejar esse projeto”. Nessa pausa de 365 dias, estudaram, principalmente, a questão mais sensível: orçamento. Para aumentar os dias de estrada, luxos foram cortados. “De hotel, passamos a cogitar hostel. Mas percebemos que camping seria melhor para o que tínhamos. Em vez de restaurantes, decidimos que iríamos cozinhar”.

Com isso, chegaram ao valor médio de US$30 para custear alimentação, hospedagem e gasolina. “Combustível é o nosso maior desafio atualmente”, dizem. No aperto, hospedar-se com amigos é o  melhor que se pode ter. “Conhecemos muitas pessoas no caminho, e muitas estão dispostas a ajudar”. O processo de migração entre Mexicali, no México, e Pasadena, nos EUA, demorou mais que o esperado. Foi um ciclista falastrão que salvou o dia convidado o casal para pousar na casa dele.

Parque Nacional de Huascaran, no Peru, ao lado de uma Alpaca

“As pessoas têm que confiar na gente, e nós, nelas. A situação é delicada. É preciso sentir a energia do outro. Viajar de casal, nesse sentido, ajuda muito. Em muitas situações, preferimos acampar em vez de ficar com algum desconhecido”, conta Daniela. Segundo Thiago, quem leva a vida itinerante percebe o perigo de forma diferente.

“Já tiveram casos de pessoas que puxaram conversa, mas desconversamos na hora. Não é só a segurança que é fundamental, o outro também precisa ser parecido com a gente”, ele conta. Por exemplo, numa visita a uma concessionária da BMW, o casal conheceu um senhor japonês muito educado e, nas palavras dos viajantes, “bom de coração”.

“Mas a comunicação era difícil, não conseguíamos entender o que ele dizia, e nosso tempo era apertado. Tivemos que recusar um convite para almoçar. Não foi porque ele era uma pessoa ruim, mas porque não tivemos um entrosamento bom”, diz Thiago. Afinidade é necessária também para acompanhar outros motociclistas na estrada: o casal avalia desde a velocidade que os companheiros viajam até o tipo de comentários que fazem.

Moto e cacarecos

Passeando de barco no Parque Nacional de Yasuni, na Amazônia Equatoriana

A moto eleita para a expedição foi a BMW 1200 GS Adventure, que é uma big trail off road também versátil no asfalto.  De todas as marcas que comercializam big trails, a GS Adventure da BMW é a que tem maior tanque — 33 litros de capacidade de armazenamento —, além de ser relativamente econômica: faz 18 km por litro. “No Brasil esse valor era menor, porque, viajando, percebemos que nosso combustível não é tão bom”.

O conforto de Daniela, que é garupa, foi levado muito em consideração, além do peso que a “moto-casa” é capaz de sustentar: além do casal, há equipamentos de filmagem, barracas, roupas e panelas. Entre Brasil e Estados Unidos, pelo menos 20 kg de cacarecos foram deixados para trás. “No início, a bagagem é a soma de todos os medos. Mas não precisa de muito tempo de estrada para ver que menos é mais. Se algo é usado no máximo duas vezes por mês, doamos, trocamos ou vendemos”, diz Daniela.

Documentação

Os serviços de  migração dão às motos o visto com tempo certo para permanecerem no país. A aduana autoriza a entrada do veículo com um documento de importação temporária. Alguns países cobram algum valor, mas outros não. “No entanto, tudo é relativamente fácil”, explica Thiago. Alguns países, sobretudo na Ásia, África e Oceania, contudo, exigem o carnê de passagem do veículo, que é uma espécie de passaporte.

Quem emite o documento é a Federação Internacional de Automobilismo, mas, no Brasil, esse passe quase nunca está disponível. Para não serem surpreendidos por nenhum serviço de migração, Daniela e Thiago tiveram que emiti-lo pela entidade sediada em outro país. O processo de obtenção consiste no pagamento de uma caução calculada em cima do ano de fabricação e valor do veículo.

“No fim da viagem, a federação confere se o automóvel entrou e saiu do país e, caso esteja tudo certo, você é reembolsado. O documento é importante porque te protege e impede que o veículo seja vendido de forma ilegal em terra estrangeira”, explica Thiago. De maneira geral, nas Américas, a placa brasileira atravessa fronteiras com relativa tranquilidade. Mas, às vezes, não convém que o veículo atravesse junto com seus proprietários. Então, ele é despachado por terra ou ar.

Conservação

O projeto Tacitus Discooperio consiste em viajar o mundo para disseminar a importância de cumprir as metas 1 e 11 do tratado de Aichi. Elas buscam reduzir a perda da biodiversidade no mundo. A primeira sustenta que, até 2020, as pessoas devem conhecer a biodiversidade e quais medidas podem tomar para conservá-la e utilizá-la de forma sustentável. A 11ª meta projeta que, em três anos, pelo menos 17% das áreas terrestres e de águas continentais, e 10% de áreas marinhas e costeiras, devem estar em áreas protegidas.

Na cidade de Salinas Garci-Medonza, na Bolívia

Daniela e Thiago visitam parques nacionais e áreas protegidas dos países para onde viajam. A partir disso, levantam ações de instituições, públicas ou não, que convirjam para o cumprimento das metas. No processo, são debatidos problemas e perspectivas para a execução dos planos de conservação, além da confiabilidade dos indicadores utilizados no acompanhamento das ações.

“Nesta primeira abordagem também iremos documentar projetos e atitudes que utilizam, de forma sustentável, a biodiversidade”, dizem os idealizadores. A sensibilização será feita com palestras e oficinas nas mais de 150 áreas protegidas visitadas, além de instituições e eventos. Até agora, Daniela e Thiago já visitaram 15 países e 66 áreas protegidas.

Conheça a rotina de Daniel e Thiago

A rota do casal passa por 121 países em cinco continentes, um percurso de 320.000 km

Projeto Tacitus Discooperio – conhecimento tácito em latim

– Propagar a importância da biodiversidade e sua conservação;
– Inspirar as pessoas a se organizarem para solucionar os conflitos entre o meio ambiente e o desenvolvimento em escala local (bairro),regional e nacional.

Facebook: https://www.facebook.com/tacitusdiscooperio/

Instagram: https://www.instagram.com/tacitusdiscooperio/

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCDzBG8yxO7kAyxkIa3qXSqw

Site: www.tacitusdiscooperio.com

 

 

 

Fonte: extrapauta.com.br

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