Filme mostra brigas entre gangues de motociclistas de dois países

Depois de rodar festivais norte-americanos e europeus de cinema, o filme nacional “Não Devore meu Coração”, de Felipe Bragança, chega às salas brasileiras no próximo dia 23.

Na terça-feira (14), em sessão fechada para a imprensa, na Reserva Cultural, em São Paulo, o diretor Felipe Bragança conversou com os jornalistas, acompanhado do escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, autor dos contos que foram adaptados para a telona. No bate-papo, Terron, que viveu três anos de sua infância na fronteira, revelou que um fantasma do passado segue marcado na memória dos paraguaios.

“No rastro do filme, voltei para gravar (na fronteira) um documentário e existe um rancor muito grande entre os dois lados. Do paraguaio, para lá de compreensível. Você percebe que a população é marcada pelas consequências da guerra (1864-1870), a pobreza extrema, tudo de ruim é reflexo disso, mesmo 200 anos depois. O mesmo rancor quanto ao mundo imperialista que o Brasil exerce em suas fronteiras. Isso ainda está muito marcado”.

E a trama dirigida por Bragança explora isso com os conflitos entre as gangues de motociclistas de ambos os países, além do conflito amoroso entre o garoto Joca (Eduardo Macedo) e a menina paraguaia Basano (Adeli Gonzales).

Irmão de Joca, Fernando (Cauã Reymond) tenta colocar na cabeça do caçula que um amor com uma menina paraguaia jamais será algo que dará certo. Enquanto Joca insiste na relação, mesmo sem ser correspondido por Basano, Fernando segue com um conflito sangrento entre os motociclistas de ambos os países.

O amor entre os dois adolescentes e o conflito dos motociclistas vêm mesclados com ódio e muitas referências folclóricas e da cultura pop. Impossível não notar algumas inspirações em “Warriors”, “Selvagem da Motocicleta” ou mesmo no clássico game “Road Rash”.

Avisos

Logo no início do filme, os letreiros informam as circunstâncias que motivaram a Guerra do Paraguai e a contagem oficial de mortos no genocídio. Citam também a atual rivalidade na fronteira entre o Paraguai e o Brasil como consequência desse período.

Tais informações indicam ao público que o romance surgido naquela fronteira pode ser tão perigoso como uma paixão em zona de conflito de qualquer parte do mundo. E o que fica evidenciado é algo como “quem bate esquece, mas quem apanha, jamais’.

De fato, enquanto o Brasil homenageia os responsáveis pelo genocídio com nomes de avenidas, ruas, cidades e repartições públicas, o Paraguai ainda sofre com a matança protagonizada séculos atrás.

Aparição ilustre

Em meio a um roteiro arrastado em alguns momentos, o filme guarda uma boa surpresa para o fim: a participação do cantor Ney Matogrosso, que nasceu em Bela Vista, cidade do Mato Grosso do Sul, próxima da fronteira. Sua presença no longa seria maior, mas foi reduzida na reta final, conforme explicou o diretor.

“No processo de pesquisa inventei o Telecatch (líder da gangue de motociclistas brasileiros) e uma das minhas referências era o Ney Matogrosso, que é de Bela Vista. Ele tem uma energia incrível no palco, mas com 75 anos e uma carreira intensa, seria impossível contar com ele em todo processo. Mesmo assim, avisei que queria ele no filme, mas não interpretando alguém inspirado nele. A proposta passou a ser um personagem bem diferente. O sotaque dele foi imitando alguns tios. No fim das contas, o Ney interpreta um homem que ele não virou, não quis ser. Gostamos muito do resultado”.

A própria energia que paira na cidade de Bela Vista é algo que pesou para o cantor não ter uma participação maior. Tal como Terron, Ney também afirmou não se sentir à vontade no município. “As pessoas não querem ficar lá. É uma cidade que tem algo de ultrapassado, que parou no tempo. Não tem uma energia muito boa”, contou o diretor.

 

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